Jane Goodall traz a Lisboa a voz dos animais na National Geographic Summit

Jane Goodall traz a Lisboa a voz dos animais na National Geographic Summit

A National Geographic Summit decorreu pela primeira vez em Lisboa nesta quinta-feira, 25 de maio, com o Teatro Tivoli como pano de fundo. Apresentado por Catarina Furtado, o evento trouxe a Portugal oradores de renome mundial, como Jane Goodall, Jodi Cobb e Tristram Stuart.

Por: Inês Ribeiro Sequeira
Fotos: Ivo Gama

“Se não se importam, darei voz àqueles que não podem estar presentes.” É assim que Jane Goodall inicia todas as suas palestras, fazendo o som característico de um chimpanzé quando este se apresenta a alguém. “Isto significa: “Bom dia. Sou a Jane.” na linguagem dos chimpanzés do Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia”, explicou.

Jane Goodall foi a oradora mais aguardada da National Geographic Summit, onde veio falar do trabalho que realiza desde 1960 na investigação do comportamento dos chimpanzés do Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia (na altura, Reserva Natural de Gombe, antiga Tanganica) e de como há mais de 30 anos se viu forçada a sair da sua “amada floresta” para viajar pelo mundo em defesa dos animais ao constatar que, entre 1960 e 1986, a devastação da floresta e a caça furtiva colocaram os chimpanzés em risco de extinção.

Falou ainda de como deu início à Fundação “The Jane Goodall Institute” e de como não perdeu a esperança nos jovens, criando para tal a “Roots and Shoots” em 1991, destinada a todos os jovens que queiram deixar a sua marca no mundo, quer ajudando outros seres humanos, quer protegendo e cuidando dos animais, ou quer preservando a Natureza. “Não herdámos a Terra dos nossos pais, mas sim dos nossos filhos”. É com base neste ditado inglês que Jane, mesmo aos 83 anos, ainda se mantém longe da floresta “mais de 300 dias por ano” e viaja pelo mundo (“Nunca fico uma semana no mesmo sítio”, mencionou) para transmitir a sua mensagem e “plantar a semente” nas mentes e corações de todos aqueles que a ouvem, principalmente dos jovens.

Jane Goodall não é uma cientista “típica”, chamemos-lhe assim. Mesmo com toda a crítica que tem recebido desde que começou os seus estudos comportamentais, ainda hoje se recusa a atribuir números aos chimpanzés e opta por lhes dar nomes, ou não usa termos científicos para descrever a reação dos animais, como explicou na conferência de imprensa, onde contou que ao descrever que “os chimpanzés ficam de pelo eriçado quando se enfurecem”, a comunidade científica a corrigiu para “piloereção dos animais”.

E por que razão o faz? “Para que os animais sejam vistos por todos com o coração e como seres vivos, e não como meras coisas. Independentemente de poder criar laços afetivos com os chimpanzés ao dar-lhes nomes, não só não consigo chamá-los por um número, como os termos científicos não são entendidos pela grande maioria das pessoas. Muitos de nós podemos conhecer o conceito de biodiversidade, mas há muita gente no mundo que pergunta “O que quer dizer biodiversidade?”, e é por isso que tento simplificar toda esta complexidade nas minhas palestras.”

Nessas mesmas palestras, Jane Goodall tem sempre um aliado que a acompanha onde quer que vá e que, nas suas palavras, “transmite inspiração a todos os que lhe tocam”. Esse companheiro é o Mr. H., um chimpanzé de peluche que lhe foi dado há 25 anos e que é sempre posicionado em destaque no púlpito onde fala ou levado ao seu colo em todas as visitas que faz.

Em Lisboa, Mr. H. teve a companhia de mais dois peluches: uma vaca, em representação dos animais que são criados intensivamente para consumo humano, e um rato gigante asiático, para demonstrar a inteligência, sensibilidade e capacidade de aprendizagem dos animais, como é o caso deste roedor que atualmente é treinado para detetar explosivos.

Durante a sua participação na National Geographic Summit, Jane contou como surgiu o seu fascínio pelos animais e por África. Tendo na sua mãe a sua maior inspiração e apoiante, desde cedo Jane teve curiosidade sobre o comportamento animal e liberdade para satisfazer as suas dúvidas. O primeiro livro que comprou ainda em criança, na cidade de Londres durante a II Guerra Mundial e numa loja de livros em segunda mão, foi o “Tarzan, O Homem Macaco”. “Depois de ler o livro, só fiquei com pena de ele ter escolhido a Jane errada”, disse com um sorriso maroto.

Uma verdadeira caixa de surpresas, durante a conferência de imprensa Jane espantou os jornalistas ao revelar que, quando há uns anos foi questionada sobre se o chimpanzé é o seu animal favorito, respondeu que não. “É demasiado parecido com o Homem. O meu animal favorito é o cão.”

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Vídeo | A jornada de “Wounda”
Partilhamos um vídeo que foi mostrado por Jane Goodall no evento e comoveu toda a plateia quando revelou a verdadeira história por detrás das imagens.

A chimpanzé “Wounda” ficou orfã de mãe ainda em bebé, após esta ter sido morta por caçadores furtivos para comércio da sua carne. Resgatada e criada pela Dr. Rebeca Atencia, do Centro de Reabilitação de Chimpanzés, em Tchimpounga, República do Congo, pertencente ao “The Jane Goodall Institute”, “Wounda” nunca tinha visto Jane em toda a sua vida.

No dia em que foi libertada na Natureza, Jane Goodall fez questão de acompanhar o processo, sendo que somente nessa altura “Wounda” a viu, sentiu, cheirou e comunicou com ela. A sua reação após sair da gaiola surpreendeu tudo e todos.

O que não surge no vídeo e que foi revelado por Jane na National Geographic Summit, em Lisboa, é que todas as fêmeas que são libertadas, são-no devidamente protegidas com um método contracetivo.

A razão? “Temos mais de 160 órfãos para cuidar e não precisamos de mais bebés”, referiu Jane. Contudo, o contracetivo de “Wounda” foi o único que não surtiu efeito e um bebé nasceu. “O nome que lhe pusemos foi “Hope” (Esperança)”.

Quando questionada há uns anos se acredita em Deus, Jane Goodall respondeu: “Não tenho qualquer ideia de quem ou o que é Deus. Acredito numa força espiritual superior e sinto-a particularmente quando estou no meio da Natureza. É simplesmente algo maior e mais forte do que eu ou do que qualquer pessoa. Eu sinto-o. E para mim é o suficiente”.

A condição humana e o desperdício alimentar
Estiveram também presentes Jodi Cobb, uma das grandes fotojornalistas da atualidade, que falou do seu trabalho junto de comunidades praticamente impenetráveis e sobre flagelos como a escravidão humana, atualmente mais proeminente do que em séculos passados e fotografada pela sua câmara.

De seguida teve a palavra Tristram Stuart, autor premiado a nível internacional e especialista em impactos ambientais e sociais decorrentes do desperdício alimentar.

O ativista mostrou como 40% dos alimentos cultivados em todo o mundo é, simplesmente, destruído, quer por questões estéticas (no caso de fruta que não corresponde aos standards dos supermercados), quer por questões “logísticas”.

Deu como exemplo o caso de um supermercado britânico que obrigava os agricultores a cortar os feijões verdes em mais de metade apenas para caberem nas suas caixas de plástico com uma determinada medida. Segundo Tristram, esses 40% desperdiçados seriam suficientes para alimentar os países com problemas profundos de fome em até três vezes.

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