Investigadores criam programa que deteta automaticamente doenças ou lesões em ovelhas

Investigadores do Reino Unido estão a desenvolver um programa que permitirá ao computador detetar automaticamente sinais de sofrimento em ovelhas, identificando assim doenças ou lesões, trabalho que será apresentado domingo na Faculdade de Engenharia do Universidade do Porto (FEUP).

“É muito difícil para os humanos detetarem emoções nas ovelhas. Em grandes propriedades, com centenas ou milhares de animais, pode ser útil ter uma tecnologia que ajude a verificar a sua saúde de forma automática”, disse à agência Lusa o investigador Quentin Stafford-Fraser, do Departamento de Ciências da Computação e Tecnologia da Universidade de Cambridge (Reino Unido).

De acordo com o especialista, através dessa deteção automática, poderia ser criado, nesses espaços, “um portão ou um sistema automático que separasse as ovelhas sinalizadas pelo programa do resto do rebanho”, evitando assim que algumas doenças “muito contagiosas” se espalhassem.

Com o elevado custo dos tratamentos veterinários, “seria uma vantagem poder diagnosticar os problemas mais cedo e direcionar os tratamentos para os animais que de facto necessitam”, salientou.

Através da utilização desta tecnologia, “não se dependeria tanto das habilidades humanas para reconhecer expressões em animais e sintomas de dor, algo que até mesmo os especialistas consideram difícil”, acrescentou o investigador, falando à Lusa a propósito da 9.ª edição do Simpósio em Bioengenharia, que decorre sábado e domingo na FEUP.

Quentin Stafford-Fraser contou que o Departamento de Ciências da Computação e Tecnologia da Universidade de Cambridge “tem uma longa história de pesquisa em interfaces de utilizador e na interação humano-computador”, incluindo “o uso da visão computacional para reconhecer gestos, expressões e emoções humanas”.

Foi através desta experiência que surgiu a ideia de verificar se as técnicas desenvolvidas para entender as expressões e emoções humanas podiam ser usadas em animais, como as ovelhas, de forma a reconhecer se estas estão felizes ou tristes.

“Triste geralmente significa que estão a sentir dor, originada por doença ou lesão”, referiu o investigador, um dos responsáveis pelo trabalho, que está a ser desenvolvido em parceria com os departamentos de Ciências Veterinárias das universidades de Cambridge e de Chester (Reino Unido).

Segundo Quentin Stafford-Fraser, existem sinais particulares que os especialistas utilizam para reconhecer se os animais estão numa situação de sofrimento.

“Enquanto nos humanos olhamos mais para as sobrancelhas e os cantos da boca, nas ovelhas olhamos para os ângulos das orelhas e a forma das narinas, examinando os movimentos que sabemos serem importantes para essa espécie como indicadores de dor ou sofrimento”, explicou.

A equipa responsável pelo projeto – que está numa fase inicial -, acredita que, ao treinar o sistema com imagens examinadas e rotuladas por especialistas, o computador pode aprender a reconhecer esses sinais por si mesmo.

O especialista avançou a possibilidade de este sistema ser adaptado para outras espécies, como cabras, vacas, ratos, coelhos e cavalos, nas quais já conseguiram identificar expressões que indicam dor.

“Esperamos poder aplicar estas técnicas noutros animais, embora seja difícil conseguir que alguns fiquem parados em frente à máquina fotográfica”, disse.

O grupo considera igualmente relevante “reduzir a quantidade de sofrimento no mundo” através de “todos os ramos da ciência, até mesmo das Ciências da Computação”.

“Isto é particularmente importante quando os animais são criados para alimentação ou utilizados em experiências. Queremos ter certeza de que não sofrem mais do que o necessário e, para isso, precisamos tentar perceber ao máximo o que estão a vivenciar”, frisou.

Texto: Lusa

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